Tiago e as obras

Tiago afirma que a fé que a pessoa nutre em Deus, sem ser fazedor da obra (que é crer em Cristo), jamais poderá salvar. Ele enfatiza que a fé (crer em Deus) que essa pessoa afirma ter, ou seja, uma fé sem obras (sem crer em Cristo), não pode salvar.


“Porque, assim como o corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta” (Tg 2:26).

 

Introdução

A má compreensão da abordagem de Tiago invariavelmente leva muitos leitores a entender que ‘boas obras’ está relacionada a alguma ação que beneficie o próximo.

O objetivo deste artigo é demonstrar sucintamente que ‘obras’ na epístola de Tiago trata da essência do evangelho, e não de ações caridosas.

 

Qual é a fé que salva?

Ao perguntar: ‘Qual é a fé que salva?’, os interpretes se preocupam em descobrir se Tiago contradiz o apóstolo Paulo, ou em como conciliar Romanos 3, verso 28 com Tiago 2, verso 24. Entretanto, o correto é ler a epístola considerando o contexto em que os termos ‘fé’ e ‘obras’ foram empregados, independentemente das considerações do apóstolo Paulo.

Se o leitor da epístola de Tiago compreender a exposição, não será necessário tentar conciliar Tiago com a exposição do apostolo Paulo, vez que devemos partir do pressuposto de que não há divergência de ideias entre eles.

Comparações e questionamentos acerca das epistolas paulinas à vista do exposto por Tiago só devem ser feitos após compreender cabalmente o texto da epistola de Tiago.

 

Obras

Lançar como pressuposto se é possível acreditar em alguém que se diz eletricista, mas que não consegue trocar uma lâmpada, ou se alguém diz ser motorista, mas não consegue estacionar um veículo, ou que alguém se diz matemático, mas não sabe o resultado de uma simples operação matemática, etc., não deve ser a base para analisar a abordagem de Tiago acerca das obras.

Ao indagar o fato de alguém dizer que tem fé, Tiago não estava analisando se essa pessoa pratica boas ações. Isto porque, uma pessoa que troca uma lâmpada pode indicar que é um eletricista, mas praticar boas ações não possui relação com a questão levantada por Tiago.

Os escribas e fariseus eram considerados pelos homens como sendo justos pelas ações que praticavam, mas eram reprovados por Deus (Mt 23:28). Boas ações não são indicativas de que alguém é salvo, verdade que se verifica na censura que Jesus emitiu acerca dos fariseus, pois sabiam dar boas dádivas aos seus semelhantes, porém, eram maus diante de Deus.

“Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará bens aos que lhe pedirem?” (Mt 7:11);

“Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho pedirem?” (Lc 11:13).

A disposição de alguém em realizar boas ações não é prova de fé, pois é próprio aos homens dar boas dádivas aos seus semelhantes:

“E qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, também, se lhe pedir peixe, lhe dará por peixe uma serpente? Ou, também, se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião?” (Lc 11:11 -12).

O que Tiago demonstra em sua epístola é que a fé alegada por seus interlocutores era réproba, e não que deveriam praticar boas ações para evidenciar o mérito da fé que professavam.

 

O problema

“Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo?” (Tg 2:14).

A pergunta elaborada por Tiago não visava estimular os seus ouvintes as práticas de civilidade, antes questionar se tal fé era de fato proveitosa. A questão é se a tal fé pode salvar, e não se é necessário praticar boas ações.

Considerando que o termo ‘fé’ no verso tem o sentido de crer, acreditar, confiar, temos que questionar qual é o objeto dessa fé, e não se esse alguém pratica boas ações. Que proveito há em alguém alegar que crê, se não crê que Jesus é o Cristo? Que proveito há em crer no impossível, ou em milagres, ou nos anjos, etc?

A questão foi formulada acerca do se crê, pois não basta crer que Deus é um só, se não executar a obra da lei perfeita da liberdade (evangelho):

“Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade, e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecidiço, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito” (Tg 1:25).

Tiago está questionando o fato de alguém dizer que crê em Deus, mas não realiza o que Ele determina (Tg 1:22). É possível a alguém ser salvo simplesmente por que diz que acredita em Deus, mas não põe por obra o que Ele determinou através do mandamento anunciado pelos apóstolos? Tal crença é sem proveito algum!

“Mas a seu tempo manifestou a sua palavra pela pregação que me foi confiada segundo o mandamento de Deus, nosso Salvador” (Tt 1:3).

O mandamento de Deus exarado no evangelho é de que o homem creia em Cristo Jesus (1 Jo 3:23). Não há proveito em dizer que tem fé em Deus, se não tiver a obra exigida por Ele. Dizer que crê em Deus sem executar a obra de Deus, não produz salvação.

De que obra Tiago está tratando? Da obra da fé, ou seja, crer no enviado de Deus! (2 Ts 1:11)

“Jesus respondeu, e disse-lhes: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou (Jo 6:29).

Perceba que a questão que Tiago está tratando não tem em vista bom comportamento, boas ações, etc. O que está sendo abordado é o fato de alguns judeus convertidos dizerem que criam em Deus, mas que não obedeciam ao mandamento de Deus: crer em Cristo.

Esses são aqueles que, segundo o apóstolo Paulo a Tito, diziam ‘conhecer’ a Deus, mas que não criam em Cristo.

“Confessam que conhecem a Deus, mas negam-no com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a boa obra” (Tt 1:16);

“Aquele que diz: Eu conheço-o, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade” (1Jo 2:4);

Negar com as obras é o mesmo que não guardar os seus mandamentos.

Tiago não estava questionando quem dizia ter fé em Cristo, antes questiona quem dizia ter fé em Deus e não criam em Cristo. É por isso que Jesus alertou os seus discípulos de que quem diz que tem fé (crê) em Deus, também precisa crer n’Ele (Jo 14:1).

A abordagem de Tiago tem em vista a linguagem utilizada pelos dos profetas e que era compreensível aos seus interlocutores, cristão convertidos dentre os judeus:

“E eles vêm a ti, como o povo costumava vir, e se assentam diante de ti, como meu povo, e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois lisonjeiam com a sua boca, mas o seu coração segue a sua avareza. E eis que tu és para eles como uma canção de amores, de quem tem voz suave, e que bem tange; porque ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra (Ezequiel 33 : 31 -32).

Não basta ser ouvinte, pois aquele que ouve a palavra e não obedece, ou seja, não põe por obra, não passa de um ouvinte esquecido (Tg 1:23). O homem tem que ser cumpridor da palavra, e não se enganar com falso discurso como: ‘eu creio em Deus’ (Tg 1:22). Quem diz crer em Deus e não crê em Cristo está fiado em um falso discurso.

Se alguém diz ter fé, que tenha fé no testemunho que Deus deu acerca do seu Filho Jesus Cristo. Quem diz que tem fé, ou seja, que diz que crê em Deus, que creia que Jesus é o Cristo, porque se não crê em Cristo,  tem Deus por mentiroso.

“Quem crê no Filho de Deus, em si mesmo tem o testemunho; quem a Deus não crê mentiroso o fez, porquanto não creu no testemunho que Deus de seu Filho deu” (1Jo 5:10).

É um equívoco entender a abordagem de Tiago como se ele estivesse recriminando quem defende a ideia de que somente a fé em Cristo Jesus é suficiente para salvação. A fé em Cristo Jesus jamais pode ser denominada de ‘fé somente’, pois o evangelho é poder de Deus para salvação.

Ao dizer: ‘qual é o proveito, se alguém disser que tem fé ‘, Tiago estava recriminando os cristãos convertidos dentre os judeus que defendiam o posicionamento de somente ter fé em Deus, esquecendo-se da instrução de Jesus: crede também em mim!

Tiago afirma que a fé que a pessoa nutre em Deus, sem ser fazedor da obra (que é crer em Cristo), jamais poderá salvar. Ele está dizendo que a fé (crer em Deus) que essa pessoa afirma ter, ou seja, uma fé sem obras (sem crer em Cristo), não pode salvar. Ora, a fé em Cristo é a obra exigida para salvação, o que é completamente diferente de alguém dizer que tem fé em Deus somente.

De outra banda, quando o apóstolo Paulo defende que pelas obras ninguém será salvo, as obras que ele faz referência são as da lei (Gl 2:16). As obras que não salvam são as obras da lei, diferente do que Tiago propõe que é a ‘obra da fé’, que é crer em Cristo (2 Ts 1:11).

Entender que o problema dos irmãos destinatários da epístola de Tiago não era a ortodoxia (doutrina correta), mas a ortopraxia (prática correta), é posicionamento completamente equivocado[1]. Na verdade, o que é abordado por Tiago é a questão da doutrina correta: crer que Jesus é o Cristo, e não somente dizer que tem fé em Deus.

Da mesma forma que alguns diziam ter fé que há um só Deus, os demônios também compartilham dessa crença e estremecem, porém, é inócua tal crença pelo fato de não ter um mandamento. O que salva é a obediência ao mandamento de Deus: crer em Cristo, e não crer que Deus existe.

Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem, e estremecem” (Tg 2:19).

A abordagem de Tiago não tem em vista questões de cunho comportamental (ortopraxia), pois os exemplos apresentados não visa obras de caridade, como dar alimento aos necessitados, e sim demonstrar que, da mesma forma que é inócuo despedir quem precisa de alimento e vestimenta sem a provisão necessária, também é inócuo dizer que tem fé em Deus, se não crê que Jesus é o Cristo (Tg 2:15 -17).

“E, se o irmão ou a irmã estiverem nus, e tiverem falta de mantimento quotidiano, e algum de vós lhes disser: Ide em paz, aquentai-vos, e fartai-vos; e não lhes derdes as coisas necessárias para o corpo, que proveito virá daí? Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma” (Tg 2:15 -17).

A prova da fé de quem diz que tem fé em Deus é crer em Cristo, pois a simples alegação de que tem fé em Deus, nada evidencia. Oferecer o único filho em sacrifício evidenciou a crença de Abraão em Deus, pois ele executou a obra exigida por Deus. A crença de Abraão sempre resultou em plena obediência, e por isso mesmo tal crença foi lhe imputada como justiça (Gn 15:6).

Neste mesmo sentido Raabe, que apesar dos riscos, recebeu os espias em sua casa, pela convicção de que “Deus, é Deus em cima nos céus e embaixo na terra” ( Js 2:11), demonstrou a sua fé em Deus escondendo os espias.

Descartar que a apreensão intelectual de crença em Cristo Jesus não é o que salva é depor contra a verdade das Escrituras, que diz:

“Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Rm 10:8 -9).

Diferente da fé em Cristo, a ‘fé’ dos demônios não resulta de um mandamento com promessa, e sim, de um saber. A confissão da unidade de Deus pelos judeus segue o mesmo diapasão dos demônios, pois não tinham em vista um mandamento.

Sem o mandamento não há salvação, mesmo quando se crê na existência de Deus!

“Sê tu a minha habitação forte, à qual possa recorrer continuamente. Deste um mandamento que me salva, pois tu és a minha rocha e a minha fortaleza” (Sl 71:3).

Aceitar a verdade do evangelho como verdadeira significa crer no testemunho que Deus deu acerca do seu Filho, e para salvação é o que Deus exige do homem. Tal confiança em Deus por intermédio de Cristo é uma entrega plena a Deus.

[1] “Por toda a epístola de Tiago fica claro que o problema dos irmãos destinatários não era a ortodoxia (doutrina correta), mas a ortopraxia (prática correta). Eles não tinham problemas com o “crer”, mas com o “fazer”. É um desafio para todos nós, que enfatizamos tanto a salvação pela fé em Cristo Jesus, e constantemente nos esquecemos que nossas obras serão julgadas. No encerramento desta lição, vale reler 2Coríntios 5.10: “Porque importa que todos nós compareçamos perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo.” Pr. José Humberto de Oliveira, estudo publicado originalmente pela Editora Cristã Evangélica, na revista “Tiago: a Fé em Ação”.

 

Claudio Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, atualmente exerce a função de Capitão da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudosbiblicos.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

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