Isaías 50 – O servo do Senhor ultrajado

A narrativa profética prevê que o Cristo, o Servo do Senhor, seria obediente ao Pai até a morte e morte de cruz (Fl 2:8), ultrajado, mas desprezando as afrontas (Sl 69:7-10).


Introdução

O capítulo 50 de Isaías abriga profecias messiânicas que apresentam alguns aspectos do ministério, da missão e da vida do Senhor Jesus Cristo.

O leitor precisa estar atento para identificar o cumprimento desses eventos e, assim, compreender a essência dessas profecias.

Assim, como a profecia contida em Isaías 61 é feita na primeira pessoa (“O espírito do Senhor Jeová está sobre mim”), a profecia contida no capítulo 50, também, contém trechos na primeira pessoa (“Por que razão vim eu e ninguém apareceu?”), conforme Is 50:2.

 

Apostasia e punição

1  ASSIM, diz o SENHOR: Onde está a carta de divórcio de vossa mãe, pela qual eu a repudiei? Ou, quem é o meu credor, a quem eu vos tenha vendido? Eis que, por vossas maldades fostes vendidos e por vossas transgressões vossa mãe foi repudiada.

O Senhor Deus questiona os filhos de Israel, por intermédio do profeta Isaías, acerca do entendimento de que Deus os abandonou. As duas perguntas formuladas por Deus instam os filhos de Jacó a apresentarem provas de que, unilateralmente, Deus resolveu abandoná-los à própria sorte.

Se o argumento do povo de Israel tivesse fundamento, eles deveriam apresentar a carta de divórcio, pela qual Deus repudiou a nação ou, que indicassem a quem Deus ficou devendo, a ponto de ter de vender os filhos de Israel, para quitar a dívida.

Os filhos de Israel deveriam fazer uma análise introspectiva verdadeira e, então, veriam que a causa de terem sido vendidos, era decorrente das suas próprias maldades (Dt 28:68) e que a rejeição da nação se deu em função das muitas transgressões (Jr 3:8, Dt 31:16-17).

Os filhos de Israel atribuíam a sua condição deplorável aos seus inimigos (Sl 137), a Deus, alegando que foram abandonados (Dt 28:68) ou, aos pecados dos pais (Jr 31:29, Ez 18:2), mas, não atinavam que o mau que lhes sobreveio era decorrente de suas próprias iniquidades.

A passagem bíblica de Deuteronômio, capítulo 28, ajuda a  compreender o motivo das queixas dos filhos de Israel e o motivo pelo qual Deus os levou ao cativeiro. O castigo foi posto por Deus como sinal para que os filhos de Israel se arrependessem de suas maldades e transgressões (Dt 28:46, Dt 31:21), mas, quanto mais eram punidos, mais se desviavam (Is 1:4-5).

“Mas eles foram rebeldes e contristaram o seu Espírito Santo; por isso se lhes tornou em inimigo, e ele mesmo pelejou contra eles” (Is 63:10).

A Rocha da Salvação que seguia o povo de Israel pelo deserto, por causa das transgressões, escondeu o seu rosto (1 Co 10:1-5; Dt 31:17-18; Dt 32:20). Por muito tempo os profetas clamavam a Deus para que resplandecesse o seu rosto sobre os filhos de Israel (Sl 80:3; Dn 9:17), pois, só assim, alcançariam o favor de Deus.

“Pela iniquidade da sua avareza me indignei e o feri; escondi-me e indignei-me; contudo, rebelde, seguiu o caminho do seu coração” (Is 57:17).

Daí a confiança do profeta Isaias:

“E esperarei ao SENHOR, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei” (Is 8:17).

Considerando o predito no Salmo 110, que apresenta o Senhor Deus falando ao filho de Davi, que também é Senhor (Sl 110:1), entende-se que o Senhor, que esconde o seu rosto, que o profeta aguardaria, refere-se ao filho de Davi – Cristo.

 

O rosto do Senhor manifestou-se

2  Por que razão vim eu e ninguém apareceu? Chamei e ninguém respondeu? Porventura, tanto se encolheu a minha mão, que já não possa remir? Ou, não há mais força em mim para livrar? Eis que, com a minha repreensão, faço secar o mar, torno os rios em deserto, até que cheirem mal os seus peixes, porquanto não têm água e morrem de sede. 3  Eu visto os céus de negridão, pôr-lhes-ei um saco para a sua cobertura.

Mas, quando o Senhor, que escondeu o seu rosto da casa de Israel, se manifestou (vim eu) em carne, ninguém se deu conta. Embora Ele tenha anunciado salvação, ninguém respondeu!

Como prometido, através dos santos profetas, o Deus eterno se esvaziou do seu poder e glória e se fez carne (Fl 2:7), e apresentou-se aos seus, dizendo: – “Eis-me aqui” (Is 8:18; Hb 2:13). Deus obrou, maravilhosamente, para a casa de Davi, seu servo, levantando da sua coxa um varão, posto por salvador do mundo, entretanto, nenhum dos filhos de Israel apareceu ou, respondeu ao seu chamado (2 Sm 7:12-14).

Daí, o questionamento: será que ninguém apareceu, porque teria se encolhido a Sua mão, de modo que não podia remir? Ou, não mais havia poder no Senhor, que se apresentou entre os homens, de modo que não pudesse livrar?

Se esses questionamentos eram a causa de ninguém aparecer ou, de atender ao chamado do Senhor, que se manifestou (veio), que lembrassem que Ele fez com a sua palavra secar o mar e tornar os rios em deserto. É Ele mesmo que põe por vestimenta dos céus o mistério, como quando se põe um pano de saco por cobertura (v. 3 e 4).

O escritor aos Hebreus aponta para Cristo, o Filho, como aquele que criou todas as coisas, ao interpretar o Salmo 102:

“E: Tu, Senhor, no princípio fundaste a terra, E os céus são obra de tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; E todos eles, como roupa, envelhecerão e como um manto os enrolarás e serão mudados. Mas tu és o mesmo, E os teus anos não acabarão” (Hb 1:10-12; Sl 102:25).

 

O Servo do Senhor

4  O Senhor DEUS me deu uma língua erudita, para que eu saiba dizer, a seu tempo, uma boa palavra ao que está cansado. Ele desperta-me todas as manhãs, desperta-me o ouvido para que ouça, como aqueles que aprendem. 5  O Senhor DEUS me abriu os ouvidos e eu não fui rebelde; não me retirei para trás. 6  As minhas costas ofereci aos que me feriam e a minha face aos que me arrancavam os cabelos; não escondi a minha face dos que me afrontavam e me cuspiam.

Ao Cristo foi dado o conhecimento de Deus a ser repassado (língua erudita) aos seus discípulos (Jo 13:49-50; Jo 14:10), o conhecimento (boa palavra, evangelho) necessário a quem está cansado (Mt 11:28; Pv 25:11).

O Cristo seria instruído por Deus, continuamente, através das Escrituras e daria ouvidos à palavra de Deus: “Louvarei ao SENHOR, que me aconselhou; até os meus rins me ensinam de noite” (Sl 16:7). Ao despertar o ouvido para ouvir as palavras de Deus, Cristo se fez servo (e eu não fui rebelde, não me retirei para trás), de modo que as suas orelhas foram furadas, pois Ele foi servo voluntário (Sl 40:6; Hb 10:5-7; Dt 15:16-17).

Pela palavra da profecia, o profeta prediz os eventos do sofrimento e crucificação do Messias, em primeira pessoa:

  1. as minhas costas ofereci aos que me feriam;
  2. a minha face, aos que me arrancavam os cabelos e;
  3. não escondi a minha face dos que me afrontavam e me cuspiam

A narrativa profética prevê que o Cristo seria obediente ao Pai até a morte e morte de cruz (Fl 2:8), desprezando as afrontas (Sl 69:7-10).

 

7  Porque o Senhor DEUS me ajuda, assim, não me confundo; por isso, pus o meu rosto como um seixo, porque sei que não serei envergonhado. 8  Perto está o que me justifica; quem contenderá comigo? Compareçamos, juntamente; quem é meu adversário? Chegue-se para mim. 9  Eis que o Senhor DEUS me ajuda; quem há que me condene? Eis que todos eles, como roupas, envelhecerão e a traça os comerá.

Por causa do auxílio do Pai, o Cristo tem por certo que não será confundido (Sl 25:20; Sl 31:17; Sl 119:80). Alguns Salmos evidenciam a confiança do Cristo no Pai, outros Salmos evidenciam um pedido do Cristo ao Pai por proteção, etc. Em razão da sua convicção, o Cristo põe o seu rosto como pedregulho (seixo, pederneira), ou seja, é inflexível, em virtude da certeza de salvação (Pv 25:26).

“Com o puro te mostrarás puro; e com o perverso te mostrarás indomável” (Sl 18:26)

Pela certeza decorrente da fidelidade que há na palavra de Deus, de que jamais seria abandonado (Sl 91:15), Cristo se apresenta inflexível ao anunciar o Pai aos homens. Certo de que é Deus quem o declara justo, Cristo sabia que não havia quem pudesse se opor a Ele. Por isso interpela os seus adversários, ou seja, os seus próprios familiares a se achegarem a Ele e, juntamente, apresentarem as suas razões (Mq 7:6).

Pela ajuda do Pai, o Cristo tinha plena certeza de que não seria condenado, pois, todos os seus opositores, juntamente, seriam destruídos, tal qual roupas quando envelhecem e são destruídas pela traça (Is 40:6-8). Se os céus fundados pelo Verbo eterno hão de perecer, quanto mais os seus opositores, que são comparados à erva do campo.

“Desde a antiguidade fundaste a terra e os céus são obra das tuas mãos. Eles perecerão, mas tu permanecerás; todos eles envelhecerão como um vestido; como roupa os mudarás e ficarão mudados. Porém, tu és o mesmo e os teus anos nunca terão fim” (Sl 102:25-27)

 

10  Quem há entre vós que tema ao SENHOR e ouça a voz do seu servo? Quando andar em trevas e não tiver luz nenhuma, confie no nome do SENHOR e firme-se sobre o seu Deus. 11  Eis que todos vós, que acendeis fogo e vos cingis com faíscas, andai entre as labaredas do vosso fogo e entre as faíscas que acendestes. Isto vos sobrevirá da minha mão e em tormentos jazereis.

Mas, o profeta pergunta por aqueles que obedecem ao Senhor, que ouçam o Cristo, o Servo do Senhor. Que aqueles que percorrem veredas sem luz, que confiem no nome do Senhor, firmando-se em Deus. Bastava aos filhos de Israel se conscientizarem que estavam em trevas, dando ouvidos à palavra do Senhor, para compreenderem as palavras do livro, que, dentre a escuridão e as densas trevas, veriam a luz de Deus, manifesta em Cristo.

“E naquele dia os surdos ouvirão as palavras do livro e dentre a escuridão e dentre as trevas, os olhos dos cegos as verão” (Is 29:18).

Os filhos de Israel são descritos como surdos e cegos:

“Apalpamos as paredes como cegos e como os que não têm olhos, andamos apalpando; tropeçamos ao meio-dia como nas trevas e nos lugares escuros, como mortos” (Is 59:10).

Diferentemente daqueles que confiarem no Senhor, os que persistem em oferecer sacrifícios (acender fogo) e se cingem com vaidade (faíscas), percorrem um caminho de perdição (labaredas do vosso fogo).

“As suas teias não prestam para vestes, nem se poderão cobrir com as suas obras; as suas obras são obras de iniquidade e obra de violência há nas suas mãos” (Is 59:6).

Claudio Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, atualmente exerce a função de Capitão da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudosbiblicos.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

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