Ficarão de fora os feiticeiros

Da mesma forma que os ‘cães’, que ficarão de fora, é uma figura para fazer referência aos maus obreiros, àqueles que andam segundo a circuncisão (Fl 3:2), os ‘feiticeiros’, também é uma figura para compor uma alegoria, muito utilizada pelos profetas para fazer referência aos filhos de Israel, por terem se desviado da palavra de Deus.


“Ficarão de fora os cães e os feiticeiros,  os que se prostituem e os homicidas, os idólatras e qualquer que ama e comete a mentira.” (Apocalipse 22:15)

Introdução

Basta ler nas Escrituras: ‘ficarão de fora os feiticeiros’, para que muitos cristãos, de diversos seguimentos (protestantes, evangélicos, neopentecostais, tradicionais, etc.), apontem para os ocultistas, mágicos, cartomantes, adivinhos, espiritualistas, espiritismo, religiões afro-brasileiras, etc., como sendo os ‘feiticeiros’ que o texto faz referência.

Para analisarmos a categoria dos “‘feiticeiros’ que ficarão de fora” e que Cristo faz referência, temos de ter em mente o ensinamento de Jesus, a seguir:

“Vós julgais segundo a carne; eu a ninguém julgo” (Jo 8:15).

Nesse mesmo diapasão, temos a seguinte pergunta do apóstolo dos gentios:

“Porque, que tenho eu, em julgar, também, os que estão de fora?” (1 Co 5:12).

Não cabe aos crentes em Cristo Jesus julgarem aqueles que não professam a verdade do Evangelho de Cristo, como sendo os ‘feiticeiros’ que as Escrituras fazem referência, pois é contra senso julgar quem já está sob condenação (Jo 3:18).

Por intermédio das Escrituras, sabemos que ninguém está condenado diante de Deus, por causa de suas práticas pagãs, antes, todos, judeus e gentios, estão sob condenação, por causa da ofensa de Adão; ofensa essa, que trouxe juízo sobre todos os homens, para condenação (Rm 5:18).

Aos cristãos cabe, somente, anunciarem a todos os povos que Jesus de Nazaré é o Cristo, o Filho de Deus, não julgá-los, pois esta é uma atribuição divina:

“Mas Deus julga os que estão de fora” (1 Co 5:13).

 

Os ‘feiticeiros’ que ficarão de fora

Quando o apóstolo Paulo diz: “Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas…” (1 Co 6:9), onde inclui os idólatras, como se vê, ele não fez referência aos não cristãos, como era o caso dos gregos de Atenas, que são descritos como idólatras.

“E, enquanto Paulo os esperava em Atenas, o seu espírito se comovia em si mesmo, vendo a cidade tão entregue à idolatria.” (At 17:16)

Na verdade, ‘os injustos’ que ‘não hão de herdar o reino de Deus’ a que o apóstolo Paulo se refere, diz daqueles que se diziam cristãos, mas que, na verdade, são anátemas, apóstatas. Essas pessoas que se diziam cristãs, frequentavam o ajuntamento solene, mas, amalgamavam elementos da lei ao evangelho. Qualquer que torce o evangelho de Cristo é um ‘idólatra’, que ficará de fora!

Os filhos de Israel achavam que era necessário ter um ídolo dentro de casa, para ser um idólatra. Porém, o profeta Jeremias deixa claro que, qualquer ação humana que faz com que alguém se esqueça de Deus, assemelha-se a um ídolo como Baal:

“Os quais cuidam de fazer com que o meu povo se esqueça do meu nome, pelos seus sonhos, que cada um conta ao seu próximo, assim como seus pais se esqueceram do meu nome, por causa de Baal.” (Jr 23:27)

Os ídolos fizeram os pais se esquecerem da palavra de Deus e um sonho, uma visão, uma profecia,  que não procede de Deus, tem o mesmo efeito, portanto, é um ídolo.

Com relação aos falsos cristãos, àqueles que são caracterizados como devassos, avarentos, idólatras, maldizentes,  os verdadeiros servos de Cristo não deviam ter nenhuma espécie de comunhão com eles. (1 Co 5:11)

Os cristãos podiam ter amizade com os nãos cristãos e, diferentemente dos religiosos judeus, até mesmo se assentarem a comer em uma mesma mesa e os mesmos alimentos, mas não deviam ter tal contato com os falsos cristãos:

“Já, por carta, vos tenho escrito que não vos associeis com os que se prostituem; Isto não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo ou, com os avarentos, com os roubadores, com os idólatras; porque, então, vos seria necessário sair do mundo.” (1 Co 5:9-10)

Um cristão podia receber um não crente em sua casa ou, cumprimentá-lo, mas, com qualquer que se afastasse da verdade do evangelho, a recomendação dos apóstolos era para os cristãos não os receberem, não os saudarem e não se associarem ou, comerem com eles. (2 Jo 9 e 11; 1 Co 5:11).

“Se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem tampouco, o saudeis.(2 Jo 10).

“Mas, agora, vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso ou, avarento ou, idólatra ou, maldizente ou, beberrão ou, roubador; com o tal nem, ainda, comais. (1 Co 5:11)

Os ‘feiticeiros’que ficarão de fora do reino dos céus, refere-se às pessoas que, apesar de se dizerem cristãs, se comportam de igual modo a Saul, bendizendo a Deus com os lábios, mas que não obedecem à Sua palavra. (Is 29:13; Mt 15:8; Jr 12:2)

“Veio, pois, Samuel a Saul e Saul lhe disse: Bendito sejas tu do SENHOR; cumpri a palavra do SENHOR.” (1 Sm 15:13).

Saul, mesmo após ser repreendido, persistiu no seu erro:

“Então disse Saul a Samuel: Antes, dei ouvidos à voz do SENHOR e caminhei no caminho pelo qual o SENHOR me enviou; e trouxe a Agague, rei de Amaleque e os amalequitas, destruí totalmente; Mas o povo tomou do despojo ovelhas e vacas, o melhor do interdito, para oferecer ao SENHOR, teu Deus, em Gilgal.” (1 Sm 15:20-21).

Diante da recalcitrância de Saul, Deus disse, por intermédio de Samuel, a Saul:

“Tem, porventura, o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar e o atender, melhor é do que a gordura de carneiros. Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria e o porfiar é como iniquidade e idolatria. Porquanto, tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei.” (1 Sm 15:22-23).

Saul, por rebelar-se, não cumprindo o determinado pelo Senhor, foi tido por feiticeiro. Por porfiar no seu erro, justificando-se a si mesmo, ainda que foi repreendido, Saul tornou-se ‘idólatra’diante de Deus. Saul era rei em Israel e não havia adotado nenhuma prática pagã, entretanto, fez-se feiticeiro, ao desobedecer a Deus. Mesmo não confeccionando nenhum ídolo de barro, madeira, ferro, etc., ele se fez idólatra, diante de Deus.

Deus nomeia Saul de feiticeiro e de idólatra, como se ele estivesse nas mesmas práticas dos pagãos. Nessa mesma linha, Deus, também, chama os profetas de Israel de feiticeiros, adivinhos, encantadores e agoureiros:

“E vós não deis ouvidos aos vossos profetas e aos vossos adivinhos, aos vossos sonhos e aos vossos agoureiros e aos vossos encantadores, que vos falam, dizendo: Não servireis ao rei de Babilônia.” (Jr 27:9)

Na lei, Deus proibiu as práticas pagãs das nações vizinhas e, na proibição, percebe-se que ‘feiticeiro’ é o mesmo que ‘adivinho’, ‘prognosticador’, ‘agoureiro’ ou, as ações de quem faz seus familiares passarem pelo fogo.

“Entre ti não se achará quem faça passar pelo fogo a seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro.” (Dt 18:10)

Na antiga aliança o termoכָּשַׁף (kashaph), traduzido por feiticeiro ou, por feitiçaria, aparece somente seis vezes, já o termoקֶסֶם (qecem), traduzido por adivinho ou, por feitiçaria, onze vezes, o termo oעָנַן(‘anan), traduzido por prognosticador, uma vez e o termo נָחַשׁ(nachash), traduzido por agoureiro, aparece dezoito vezes.

Qualquer que não obedece (teme) a palavra de Deus é o mesmo que feiticeiro ou, adúltero. Neste sentido é alguém que jura falsamente, defrauda a diarista, órfão e a viúva, perverte o direito do estrangeiro, etc., isso se considerarmos o princípio que estabelece que quem tropeça em um só ponto da lei, torna-se transgressor de toda a lei. (Tg 2:10)

“E chegar-me-ei a vós para juízo; e serei uma testemunha veloz contra os feiticeiros, contra os adúlteros, contra os que juram falsamente, contra os que defraudam o diarista em seu salário, a viúva e o órfão, e que pervertem o direito do estrangeiro e não me temem, diz o SENHOR dos Exércitos.” (Ml 3:5).

Os filhos de Israel praticavam a circuncisão do prepúcio da carne e todos os rituais pertinentes à lei, porém, Deus os declara incircuncisos de ouvidos, por não obedecerem à palavra de Deus (Jr 6:10), consequentemente, eram incircuncisos de coração (Jr 4:4). Tanto os filhos de Israel, como os gentios, eram passíveis de punição, pois não obedeciam a Deus. (Sl 53:3)

“Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que castigarei a todo o circuncidado, com o incircunciso” (Jr 9:25).

Os feiticeiros que ‘não hão de herdar o reino de Deus’, são aqueles que dizem crer em Jesus Cristo, mas que não creem segundo as Escrituras (Jo7:38). Quem não permanece na doutrina dos apóstolos e dos profetas, antes se deixa levar por ventos de doutrinas, são feiticeiros. (Tt 1:9; Hb 13:9; 2 Jo 1:9-10; Ef 4:14)

Os falsos profetas em Israel eram denominados por adivinhos e feiticeiros, e Deus se opõe a todos eles, os inventores de mentiras, cujo conhecimento é loucura. Basta falar, falsamente, em nome de Deus, para ser um ‘adivinho’ ou, ser sábio segundo a carne para ser designado ‘louco’. (Rm 1:12).

“Que desfaço os sinais dos inventores de mentiras e enlouqueço os adivinhos; que faço tornar atrás os sábios e converto em loucura o conhecimento deles.” (Is 44:25)

“E disse-me o SENHOR: Os profetas profetizam falsamente no meu nome; nunca os enviei, nem lhes dei ordem, nem lhes falei; visão falsa e adivinhação,  vaidade e o engano do seu coração, é o que eles vos profetizam.” (Jr 14:14)

Em suma, todos os descendentes da carne de Adão são ímpios, portanto, não podem herdar o reino dos céus (1 Co 15:50). Todos os homens são ímpios, pois se desviaram, desde o Éden, e andam errados desde que nascem, proferindo mentiras (Sl 58:3; Sl 53:3). Todos os homens são terrenos, não importa, se judeus ou gentios, portanto, não podem herdar o reino dos céus. (1 Co 15:47)

Mas, os ímpios, que o apóstolo Paulo diz que ‘não podem herdar o reino dos céus’ (1 Co 6:9), não é extensivo e nem diz de todos os homens, nascidos no pecado, antes, é uma abordagem inclusiva, pois, faz referência, única e exclusivamente, aos ímpios que, por serem descendentes da carne de Abraão, se achavam salvos (Gl 2:15). Os ímpios, nomeados por ‘feiticeiros’, diz, especificamente, daqueles que, após ouvirem a verdade do evangelho e se dizerem cristãos, não perseveravam na doutrina e voltavam-se para os ensinamentos dos judaizantes.

A doutrina dos judaizantes são doutrinas de demônios, espíritos (mensagens) enganadores, pois eles falavam mentiras. É acerca desses feiticeiros, ou seja, daqueles que obedecem (amam) e propagam a mentira, que Jesus anuncia que ficarão de fora:

Ficarão de fora os cães e os feiticeiros, os que se prostituem e os homicidas,  os idólatras e qualquer que ama e comete a mentira.” (Ap 22:15)

“MAS, o Espírito, expressamente, diz que, nos últimos tempos, apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios; Pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência.” (1 Tm 4:1-2; 1 Jo 4:1-2).

Qualquer que ama a mentira é anátema, pois Cristo é a verdade:

“Se alguém não ama ao Senhor Jesus Cristo, seja anátema. Maranata!” (1 Co 16:22)

É por isso que Jesus se limitava a anunciar somente aquilo que o Pai prescreveu:

“Disse-lhes, pois, Jesus: Quando levantardes o Filho do homem, então, conhecereis quem eu sou e que nada faço por mim mesmo; mas falo como meu Pai me ensinou.” (Jo 8:28)

“Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me enviou, Ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de falar. E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo, falo-o como o Pai mo tem dito.” (Jo 12:49-50)

Qualquer que crê no evangelho anunciado pelos apóstolos e nele persevera, é salvo, portanto, entrará no reino dos céus. Basta crer em Cristo no coração e confessá-lo com a boca, para não estar incluso no rol dos feiticeiros!

“TAMBÉM vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado, o qual, também, recebestes, e no qual também permaneceis. Pelo qual, também, sois salvos, se o retiverdes, tal como vo-lo tenho anunciado; se não é que crestes em vão.” (1 Co 15:1-2)

“Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus e em teu coração creres, que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que, com o coração, se crê para a justiça e com a boca se faz confissão para a salvação.” (Rm 10:8-10).

Da mesma forma que os ‘cães’, que ficarão de fora, é uma figura para fazer referência aos maus obreiros, àqueles que andam segundo a circuncisão (Fl 3:2), os ‘feiticeiros’, também é uma figura para compor uma alegoria, muito utilizada pelos profetas para fazer referência aos filhos de Israel, por terem se desviado da palavra de Deus.

Os filhos de Israel são tidos por filhos da agoureira, descendência de feiticeiros e prostitutas (Is 57:3-4), portanto, qualquer que se afasta do evangelho e se volta ao judaísmo, volta à sua antiga condição: feiticeiro!

“Mas chegai-vos aqui, vós os filhos da agoureira, descendência adulterina e de prostituição. De quem fazeis o vosso passatempo? Contra quem escancarais a boca e deitais para fora a língua? Porventura, não sois filhos da transgressão, descendência da falsidade?” (Is 57:3-4).

O profeta Ezequiel protestou contra os filhos de Israel, dizendo: “E eles vêm a ti, como o povo costumava vir, e se assentam diante de ti, como meu povo, e ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra; pois lisonjeiam com a sua boca, mas o seu coração segue a sua avareza (Ez 33:31), e Jesus complementa: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom (Mt 6:24). O coração que segue a avareza, o lucro, as riquezas (Mamom), é um coração idólatra, e a sua obstinação em permanecer no erro do seu coração enganoso é feitiçaria.

 

 

 

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto

Claudio Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, desde 2004 exerce a função de Tenente da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudobiblico.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

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