A parábola dos gafanhotos do profeta Joel

O estrago descrito pela ação de gafanhotos, remete aos grandes males decorrentes da guerra com as nações estrangeiras e não a legiões de demônios. É uma mentira sem precedentes dizer que cada tipo de gafanhoto representa legiões de demônios, que agem sobre a vida dos homens.


Introdução

É absurdo o número de sermões, artigos, livros e exposições que descrevem a visão dos gafanhotos, anunciada pelo profeta Joel, como sendo legiões de demônios que se arremetem contra o patrimônio de crentes não dizimistas.

Uma pesquisa simples na internet retorna inúmeros artigos e livros[1] afirmando, categoricamente, que os gafanhotos são legiões de demônios que agem diretamente no patrimônio das pessoas, destruindo casas, carros, roupas, mantimentos, salários, etc. Que esses demônios provocam desastres de carros, aviões, afundam navios, derrubam prédios, matam pessoas, destroem nações, famílias, igrejas, casamentos e lares.

É isso mesmo, o que a parábola dos gafanhotos anunciada por Joel, representa? Os gafanhotos são demônios?

 

A parábola

“O que ficou da lagarta, o gafanhoto o comeu, o que ficou do gafanhoto, a locusta o comeu e o que ficou da locusta, o pulgão o comeu.” (Jl 1:4)

Antes de analisar o texto, quero tranquilizar o leitor de que as figuras da lagarta, do gafanhoto, da locusta e do pulgão, que compõem a parábola do profeta Joel não são demônios. Qualquer abordagem, nesse sentido, tem por objetivo enganar os incautos, tornando o leigo e neófito presa fácil de homens inescrupulosos ou, no mínimo, ignorantes da verdade bíblica.

A parábola que o profeta Joel anunciou tinha um público específico: os judeus, antes da dispersão. Quando Joel anuncia a mensagem de Deus aos anciões e moradores da terra, não tinha em vista a humanidade, como se estivesse falando do planeta terra, antes, a mensagem tinha por alvo os líderes judaicos e os moradores da terra de Canaã, ou seja, os judeus. (Jl 1:2)

Ampliar o alcance da profecia, para falar aos gentios ou, até mesmo, para falar aos membros da igreja de Cristo, é torcer a mensagem do profeta Joel, pois, o público alvo da mensagem, são os israelitas, conforme se depreende da última frase do verso: ‘… ou, nos dias de vossos pais’, um modo de fazer referência às gerações anteriores dos filhos de Israel.

“Ouvi isto, vós anciãos e escutai, todos os moradores da terra: Porventura, isto aconteceu em vossos dias ou, nos dias de vossos pais?” (Jl 1:2)

Os israelitas deveriam retransmitir a mensagem do profeta Joel, acerca dos gafanhotos, aos seus filhos e os filhos aos seus filhos, para que a mensagem alcançasse as gerações futuras. (Jl 1:3)

E o que seriam os gafanhotos da parábola? A resposta encontra-se no verso 6: uma nação estrangeira poderosa e numerosíssima!

“Porque subiu contra a minha terra uma nação poderosa e sem número; os seus dentes são dentes de leão e têm queixadas de um leão velho.” (Jl 1:6)

O profeta Jeremias, também, fez alusão à invasão estrangeira, utilizando-se de outras figuras:

“Porque visitá-los-ei com quatro gêneros de males, diz o SENHOR: com espada para matar e com cães, para os arrastarem,  com aves dos céus e com animais da terra, para os devorarem e os destruírem.” (Jr 15:3)

A invasão de nações estrangeiras já estava prevista pelo profeta Moisés:

“O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra, que voa como a águia, nação cuja língua não entenderás; Nação feroz de rosto, que não respeitará o rosto do velho, nem se apiedará do moço; E comerá o fruto dos teus animais e o fruto da tua terra, até que sejas destruído; e não te deixará grão, mosto, nem azeite, nem crias das tuas vacas, nem das tuas ovelhas, até que te haja consumido.” (Dt 28:49-51)

O profeta Joel faz a mesma previsão, porém, compõe uma parábola para facilitar o anúncio dos eventos futuros, dos pais aos filhos. Como alguém se esqueceria de uma parábola que apresenta gafanhotos, que devoram tudo à sua frente?

A invasão dos caldeus é comparada à destruição causada por gafanhotos, pois invadiriam as cidades de Israel, que se assemelhavam ao Éden, das quais, após a invasão babilônica, restaria somente desolação.

“Dia de trevas e de escuridão; dia de nuvens e densas trevas, como a alva espalhada sobre os montes; povo grande e poderoso, qual nunca houve, desde o tempo antigo, nem depois dele haverá pelos anos adiante, de geração em geração. Diante dele um fogo consome e atrás dele uma chama abrasa; a terra diante dele é como o jardim do Éden, mas, atrás dele, um desolado deserto; sim, nada lhe escapará.” (Jl 2:2-3)

A parábola dos gafanhotos serviu ao propósito de ilustrar o predito por Moisés, pois a nação que invadiria Israel devoraria tudo o que os animais e o campo produziam. Não ficaria grão, mosto, azeite e nem crias dos animais, em razão da invasão estrangeira.

A vide e a figueira são figuras que remetem às duas casas dos filhos de Jacó: Judá e Israel, de modo que a profecia e a parábola representam, única e exclusivamente, os filhos de Israel. Colocar os homens ou, os gentios ou, a igreja, como objetos da ação dos gafanhotos, é fantasia da cabeça de alguém mal informado.

Os profetas Isaias e Jeremias comparam as nações estrangeras a bestas feras do campo, em lugar de utilizar-se da figura dos gafanhotos:

“Vós, todos os animais do campo, todos os animais dos bosques, vinde comer” (Is 56:9);

“Por isso, um leão do bosque os feriu, um lobo dos desertos os assolará; um leopardo vigia contra as suas cidades; qualquer que sair delas será despedaçado; porque as suas transgressões se avolumam, multiplicaram-se as suas apostasias.” (Jr 5:6)

O estrago descrito pela ação de gafanhotos, remete aos grandes males decorrentes da guerra com as nações estrangeiras e não a legiões de demônios. É uma mentira sem precedentes dizer que cada tipo de gafanhoto representa legiões de demônios, que agem sobre a vida dos homens.

Qualquer que diga que o gafanhoto cortador é um tipo de legião de demônios, que age na vida de quem não obedece a Deus, é mentiroso.

Deus amaldiçoou a terra, em função da desobediência de Adão e, por fim, determinou que o homem comeria do suor do seu rosto (Gn 3:17-19). Essa determinação divina recai sobre justos e injustos! Outra maldição que se abateu sobre a humanidade, judeus e gentios, foi a morte, pela qual todos os homens estão alienados da glória de Deus.

Mas, apesar da maldição decorrente da ofensa de Adão, a sorte está lançada sobre o regaço de todos os seus descendentes, sem distinção de justos e injustos “pois o tempo e o acaso afetam a todos, indistintamente” (Pv 9:11). Todos quantos nesta vida trabalharem, tem direito a comer, pois a lei da semeadura é igual para todos: justos e injustos.

Dizer que o gafanhoto cortador atua sobre a vida dos infiéis é falácia. Dizer que parte do que um infiel ganha com o seu trabalho, pertence aos demônios é escabroso, pois do Senhor é a terra e a sua plenitude.

Utilizar Isaias 55, verso 2, para falar de finanças, depõe contra a verdade das Escrituras. Quando Isaias interpela o povo, acerca de gastarem o que ganharam com trabalho naquilo que não é pão, não estava falando de cigarro, bebida, diversão, remédio, etc. Deus estava repreendendo o povo por gastar o que adquiria com sacrifícios, ofertas que não agradavam a Deus (Is 1:11-12; Is 66:3).

O que Deus se agrada e, que verdadeiramente satisfaz o homem, é que se dê ouvidos à palavra de Deus, isso, porque, ‘atender é melhor do que sacrificar’. (1 Sm 15:22) Mas, os filhos de Israel, eram dados aos sacrifícios ou, seja, gastavam o fruto do trabalho com o que não podia satisfazer!

“Porém, Samuel disse: Tem porventura o SENHOR tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça à palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros.” (1 Sm 15:22)

Já é desatino dizer que o gafanhoto destruidor refere-se às calamidades naturais, desastres, intempéries, etc., mas, aplicar João 10, verso 10, em que o ladrão veio, senão a matar, roubar  e destruir, como sendo ação do diabo, é má leitura eivada de segundas intenções. Dizer que a legião de demônios, que o gafanhoto destruidor representa, é assassinos que cumprem o que diz João 10, verso 10; é nefasto.

O ladrão que Jesus disse que veio matar, roubar e destruir não se refere ao diabo, mas,sim aos líderes de Israel, que vieram antes d’Ele. Os líderes de Israel eram ladrões e salteadores, pois eles agiam antes de Jesus vir, por causa do predito pelos profetas:

“É pois esta casa, que se chama pelo meu nome, uma caverna de salteadores aos vossos olhos? Eis que eu, eu mesmo, vi isto, diz o SENHOR.” (Jr 7:11);

 “Todos quantos vieram antes de mim são ladrões e salteadores; mas as ovelhas não os ouviram.” (Jo 10:8);

O ladrão não vem senão a roubar, a matar e a destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância.” (Jo 10:10);

“E disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de ladrões. (Mt 21:13)

A conclusão dos preletores que utilizam a parábola dos gafanhotos é mais esdrúxula, ainda, quando propõe uma maneira de vencer os gafanhotos: ser dizimista!

Considerando que os gafanhotos representaram a nação dos caldeus, que invadiu Jerusalém no ano de 586 a.C., quando Nabucodonosor II — imperador babilônico — invadiu o Reino de Judá, destruindo tanto a cidade de Jerusalém, como o Templo, e deportando os judeus para a Mesopotâmia, como fazer para vencer os tais ‘gafanhotos’, se os caldeus estão extintos?

Além de dizerem que os gafanhotos da parábola de Joel são várias espécies de demônios, muitos preletores dizem que a única forma de vencê-los é através da fidelidade nos dízimos e ofertas! Inverdade!

Os filhos de Israel sofreram a invasão das nações estrangeiras, em razão de não terem descansado a terra, segundo a palavra do Senhor, e não em razão de não serem dizimistas, como se lê:

“E espalhar-vos-ei entre as nações, e desembainharei a espada atrás de vós;  a vossa terra será assolada e as vossas cidades serão desertas. Então a terra folgará nos seus sábados, todos os dias da sua assolação e vós estareis na terra dos vossos inimigos; então, a terra descansará e folgará nos seus sábados. Todos os dias da assolação descansará, porque não descansou nos vossos sábados, quando habitáveis nela” (Lv 26:33 -35).

É em função de não terem descansado a terra, que Deus estabeleceu as 70 semanas de Daniel, como registrado no Livro das Crônicas:

“Para que se cumprisse a palavra do SENHOR, pela boca de Jeremias, até que a terra se agradasse dos seus sábados; todos os dias da assolação repousou, até que os setenta anos se cumpriram.” (2 Cr 36:21).

O reclame de Malaquias, quanto a trazer todos os dízimos à casa do tesouro, se dá muito tempo após a deportação babilônica (Ml 3:10). O profeta Malaquias foi contemporâneo de Esdras e Neemias, no período após o exílio, quando os muros de Jerusalém já estavam reconstruídos, por volta de 445 a.C.

A Bíblia é clara:

“Como ao pássaro o vaguear, como à andorinha o voar, assim a maldição sem causa não virá”. (Pv 26:2)

A maldição que se abateu sobre os filhos de Israel se deu pela ação de demônios? Não! Demônios são malditos por natureza, mas não são a causa de maldições sobre a humanidade. A causa da maldição que se abateu sobre os filhos de Israel foi a desobediência aos preceitos de Deus, entregues por Moisés. A invasão babilônica só ocorreu em função da desobediência de Israel e não pela ação de demônios!

Aos filhos de Israel, Deus propôs bênçãos e maldições e o mote para recebê-las era, respectivamente, obediência e desobediência. A causa da maldição foi a desobediência, pois sem causa não virá maldição.

E quem instituiu a maldição? O próprio Deus!

“Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz do SENHOR teu Deus, para não cuidares em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos, que hoje te ordeno, então virão sobre ti todas estas maldições e te alcançarão: Maldito serás tu na cidade e maldito serás no campo. Maldito o teu cesto e a tua amassadeira. Maldito o fruto do teu ventre e o fruto da tua terra e as crias das tuas vacas e das tuas ovelhas. Maldito serás ao entrares e maldito serás ao saíres. O SENHOR mandará sobre ti a maldição; a confusão e a derrota em tudo em que puseres a mão para fazer; até que sejas destruído e até que, repentinamente, pereças, por causa da maldade das tuas obras, pelas quais me deixaste.” (Dt 28:15-20)

Certo é que, sem causa, não há maldição!

Contribuição pecuniária para uma determinada instituição não livra ninguém de demônios, maldições, mal olhado, etc. Tais mensagens são engodo para enlaçar os simples. Não é porque não se tem conhecimento, que se não será penalizado:

“O avisado vê o mal e esconde-se; mas os simples passam e sofrem a pena.” (Pv 27:12)

Alegar desconhecimento, diante de Deus, não livra ninguém das consequências. Daí a necessidade de o homem estar atento à voz de Deus.

Mas, há quem ouve a palavra de Deus, porém, delibera andar segundo o que propõe o seu coração enganoso, achando que terá paz. Grande engano, pois a benção do Senhor é para aqueles que atendem à Sua palavra.

“E aconteça que, alguém ouvindo as palavras desta maldição, se abençoe no seu coração, dizendo: Terei paz, ainda que ande conforme o parecer do meu coração; para acrescentar à sede, a bebedeira.” (Dt 29:19)

A lição que o crente em Cristo Jesus tira do anunciado na parábola dos gafanhotos é a expressa pelo apóstolo Paulo aos Coríntios:

“E estas coisas foram-nos feitas em figura, para que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram.” (1 Co 10:6).

Para quem crê que Jesus é o Cristo, já não há condenação, e o que lemos dos filhos de Israel é para que não incorramos nos mesmos erros. Se não há condenação para quem é nova criatura, certo é que está escondido com Cristo em Deus, portanto, não tem que ter medo de demônios, maldições, etc.

Quem está em Cristo o maligno não toca, pois está escondido com Cristo, em Deus:

“Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado, conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca.” (I Jo 5:18);

“Porque já estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo, em Deus.” (Cl 3:3)

Todos os crentes em Cristo foram abençoados com todas as bênçãos espirituais em Cristo Jesus (Ef 1:3), portanto, não há que temer a ação de demônios.

A única maldição que pode atingir um crente é se deixar enganar por homens que, com astúcia, enganam fraudulosamente, afastando-se da verdade do evangelho (Ef 4:14; 2 Pe 2:20-21), pois, com relação a todas as coisas, é mais que vencedor, e nenhuma criatura pode separá-lo do amor de Deus, que está em Cristo.

“Mas, em todas estas coisas, somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura, nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8:37-39)

Correção ortográfica: Pr. Carlos Gasparotto


[1] Welfany Nolasco Rodrigues, Os Gafanhotos: Cortador, Migrador, Devorador e Destruidor, Varginha/MG, 2014.

Claudio Crispim

Nasceu em Mato Grosso do Sul, Nova Andradina, em 1973. Aos 2 anos, sua família mudou-se para São Paulo, onde vive até hoje. O pai ‘in memória’ exerceu o oficio de motorista de ônibus coletivo e a mãe comerciante, ambos evangélicos. Claudio Crispim cursou o Bacharelado em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública na Academia de Policia Militar do Barro Branco e, desde 2004 exerce a função de Tenente da Policia Militar do Estado de São Paulo. É casado com Jussara e é pai de dois filhos, Larissa e Vinícius. É articulista do Portal Estudo Bíblico (www.estudobiblico.org), com mais de 360 artigos publicados e distribuídos gratuitamente na web.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *